A Chegada a Bissau

A Bordo do Uíge, ao largo de Bissau, 26 de Janeiro de 1966


Os contornos difusos de Bissau começaram a surgir com a primeira alvorada guineense. O navio, que ainda noite lançara âncoras ao largo, estava finalmente quieto, depois de cinco dias de mar alto. O nosso olhar ansioso pousou sobre a cidade e custou-me distinguir uma certa África que eu tão bem conhecia.

O calor, que tinha vindo a acentuar-se à medida em que o barco avançava para sul, era agora muito intenso. A humidade salgada colava-se à pele como uma película desagradável e era como que a confirmação epidérmica do meu regresso a África, depois de um ano de ausência. 

Sem qualquer espécie de emoção, a não ser o aperto da garganta por saber que, para lá das casas baixas que eu divisava no horizonte, a guerra era uma realidade que matava, que feria, que estropiava.

Realidade que o subconsciente tem dificuldade em ligar ao meu imaginário de África - grande, selvagem, mas pacífica. Por isso não pude evitar que a emoção me traísse, quando respondi à inevitável pergunta de um soldado: 


"É isto África, meu alferes?"

Ambos sabíamos que a paisagem não correspondia à imagem de grandeza e de beleza selvagem que eu transmitira durante a instrução, em Abrantes, Tancos e Santa Margarida, tendo por referência a África que eu conhecia muito bem: Angola, onde eu vivera praticamente toda a minha juventude.

E sentindo que, se mentisse a esse soldado simples estaria a mentir a mim mesmo, apelei à inspiração resignada, mas triste: "Não, não é isto a África que eu conheço… É outra África. Esta, vamos conhecê-la os dois…".

Se conhecemos…


Durante dois anos, lado a lado, tivemos de a conhecer até às entranhas! Enterrámo-nos nas bolanhas, dormimos em buracos escavados à pressa, abrigámo-nos à  sombra das árvores esguias e altas, bebemos a chuva escorrida entre as folhas ou chupámos as gotas de um punhado de lama amassada; o nosso sangue foi sugado pelos mosquitos; o nosso suor e algumas vezes, as nossas lágrimas ajudaram a molhar a terra ressequida… 

Andámos dezenas e dezenas de quilómetros em picadas ou abrindo clareiras na mata espessa com o nosso próprio corpo;  conhecemos as tabancas, falámos com as pessoas e entendemo-las num português incipiente, com ajuda de meia dúzia de expressões na língua local e até através da linguagem universal do gesto; pegámos ao colo tantas crianças, ajudámos a matar a fome de tantos homens e mulheres… Mas também matámos… Mas também morremos…


Oh, sim… se conhecemos essa outra África!… 


A Instalação

  Os dias seguintes foram de arrumação. Como uma família numerosa que se muda para uma grande casa numa terra que não conhece. Dos vizinhos, se não sente hostilidade, pelo menos indiferença. De qualquer forma, a diferença... nos hábitos, na cultura, na cor...

Eis um pormenor que, à partida, despertara a minha curiosidade: ao contrário de mim próprio, que crescera numa outra colónia africana - Angola - a maior parte daqueles homens tinha do africano a imagem estereotipada que a sua própria cultura lhes inculcara. Muitos deles já tinham visto homens e mulheres de raça negra, aqui e além, nas grandes cidades da metrópole. Mas o negro dito civilizado, vestindo e agindo à europeia, e não o homem enquadrado no seu ambiente puro, selvagem, genuíno...


É claro que não foi em Bissau, a capital, onde tiveram esses encontros.

De qualquer maneira, logo no quartel, a evidência de que aquele não era bem igual a qualquer dos outros em que estiveramos. Não era um quartel de permanência, mas de passagem: uma cama em beliche em casernas mais amplas e arejadas que as da metrópole, um armário metálico quase à medida da "bagagem" de cada um: as peças de fardamento que o exército distribuira antes da partida e que tinham de ser conservadas, ainda que em pedaços, até ao fim, da comissão.

De resto já todos se tinham habituado à precaridade das estadias e ninguém disputava fosse o que fosse. Água corrente, chuveiros a funcionar razoavelmente, latrinas limpas e um pedaço de sabão-macaco constituíam o luxo máximo que se podia esperar e era suficiente para espalhar uma quase total sensação de conforto...

A Adaptação

  Após a instalação, tão boa ou tão má como qualquer outra num quartel, houve que desbravar áreas menos conhecidas. A começar pelo léxico guineense, entendido nas suas vertentes indígena e crioula. Mas as primeiras palavras a ferir o ouvido do soldado, pouco habituado a variações até do seu próprio regionalismo na metrópole, foram sem dúvida, os topónimos. E foi curioso notar a forma interessada como repetia os sons que ia ouvindo, como se fosse a letra de uma canção...

"Bissalanca... Nhacra... Mansôa... Gêba... Logo nos primeiros dias, dezenas e dezenas de novas palavras, todas elas apreendidas quase com reverência, como potenciais palcos de combate ou de morte.

A um tempo físico e psicológico, o primeiro grande esforço foi sem dúvida a resistência ao clima que - mau grado toda a informação previamente colhida - excedeu todas as expectativas. 

Que era quente, sabia-se; que era húmido também se contava... mas tanto é que não... 
O corpo pede água, mais água, mais líquidos. E aí surge o primeiro drama: é que há ordem para não se beber a água canalizada quando a há e, muito menos, a de poços ou fontenários, a não ser que previamente tratada com produtos químicos, o que lhe dava um sabor intragável. Água engarrafada, só a Perrier, francesa, importada do Senegal, mas demasiado cara para a bolsa do soldado. O mesmo para os refrigerantes, poucos e também importados. A solução encontrada pela maioria era a cerveja, a portuguesa Sagres, vendida ali em garrafas de litro.
Mas as consequências desta opção eram naturalmente pouco recomendáveis... É que a cerveja pesa no estômago, para além de aliviar a bolsa!

A Vida num Quartel e a Psico...

  Transcorrido cerca de um mês em Bissau, tempo que serviu para adaptação sobretudo ao clima inóspito, a companhia é enviada para Pirada, uma povoação estrategicamente importante, uma vez que ficava a escassos metros da fronteira com o Senegal.

Sabia-se que era exigida à guarnição uma actuação mais política e diplomática do que militar já que a guerra andava na altura relativamente longe daquelas paragens e se pretendia que assim continuasse.

Uma outra particularidade daquela quadrícula era o destacamento permanente de um pelotão em Paúnca, a cerca de 40 quilómetros de picada para o interior e de tanta ou maior importância demográfica e estratégica.

Como o primeiro pelotão a ser destacado por um período de seis meses foi o meu, eis-me, com pouco mais de 22 anos, a comandar um destacamento de 43 homens, num aquartelamento improvisado mesmo no centro da povoação. Como missão, para além da ocupação e defesa do vasto território, a manutenção da política de acção psicológica que na altura configurava a estratégia que o exército desenvolvia nas três províncias ultramarinas em guerra. Uma tarefa que à primeira vista parecia dar um pouco de coerência à nossa presença ali tão longe.

Com um senão... que cedo eu viria a perceber à custa de dolorosa experiência: em todo o período de instrução, aprendemos a nomenclatura e o funcionamento das armas, aprendemos a orgânica e a rotina militares, aprendemos a fazer emboscadas, a montar e desmontar minas e armadilhas, enfim, aprendemos a matar, pelo menos para não sermos mortos. Mas nada, absolutamente nada nem ninguém nos tinha preparado para essa tarefa que, afinal, parecia resumir toda a razão da nossa presença ali.


A gestão de um quartel, de todos os inevitáveis conflitos de quatro dezenas de homens confinados durante meses a uma cerca de arame farpado e com a guerra a ouvir-se não longe do recinto; a capacidade de prever um ataque sempre possível e de preparar a defesa ou a sobrevivência; a gestão das relações com a população numerosa e em muitos casos só forçadamente amigável, e com a meia dúzia de comerciantes europeus que na tropa depositavam a única esperança de segurança que era possível naquela altura... Tudo isso sem qualquer espécie de preparação específica, era muito para um alferes miliciano...

Mas as dificuldades não radicavam apenas na falta de preparação psicossocial; entravam mais fundo, a níveis que é difícil imaginar...

Era suposto que a tropa configurasse todo o esquema de responsabilidade social: garantia a segurança da população, ajudava nas tarefas económicas, apoiava de alguma forma a educação e a formação profissional e assegurava a assistência médica e medicamentosa. É justo que se diga que na maior parte dos casos esse desiderato foi alcançado com algum sucesso; sobretudo nas maiores concentrações populacionais e, por conseguinte, de efectivos militares.

A nível de batalhão e mesmo de companhia, a tropa assegurava protecção militar, apoio logístico e assistência médica ou, pelo menos, de cuidados de saúde primários. O problema que na generalidade se punha era o do isolamento e da falta de estruturas e de preparação para satisfazer todos aqueles pressupostos...

Mas que ninguém diga que, mesmo assim, a missão não era cumprida!

Ilustro-o, a seguir, com alguns episódios, rigorosamente verdadeiros.

De Médico e de Louco...

  O dispositivo militar de Pirada incluía um médico em permanência, para além do furriel enfermeiro e alguns cabos maqueiros. Mas, pelas dificuldades de recrutamento, era raro que o médico do Batalhão, com sede em Bafatá, permanecesse mais de um ou dois dias de cada vez na Companhia. Assim, era com natural dificuldade que esse médico estendia a sua acção ao destacamento do pelotão de Paúnca. Por isso, eram grandes os períodos em que o recurso ao médico só era possível em Bafatá, a meio dia de distância em coluna militar.

Por definição, o médico destacado na sede da Companhia assegurava assistência a toda a população da vasta área da quadrícula, não fazendo distinção até dos naturais do Senegal, cuja fronteira ficava a escassas centenas de metros. 

E, tal como acontecia em dezenas de outros aquartelamentos no interior, a população habituou-se a formar filas dentro do quartel, logo pela manhã, para expor as suas mazelas ao doutor e conseguir os comprimidos que, como que por feitiço, aliviavam as dores e curavam mesmo...

Nada nem ninguém conseguiria anular as consultas do dia sem que isso representasse um forte rombo na credibilidade da tropa... Por isso, por conselho da hierarquia, quando não havia médico por largos períodos, o alferes ou o sargento deveriam encarregar-se da triagem dos doentes e encaminhar os mais graves para a sede do Batalhão, sendo possível, na primeira coluna militar, e tentar resolver os casos mais simples.


Pois... os casos simples... 

Clínica Geral

  Casos simples eram aqueles que num relance empírico permitiam estabelecer o diagnóstico: as constipações, as infecções externas, as indisposições digestivas, ou até o nosso bem conhecido paludismo. Isto para além daquelas que não eram doenças (pelo menos sem qualquer sintoma visível) e que dizia bem da apetência ou da necessidade das pessoas por um pouco de atenção e alguns comprimidos que, se não fizessem bem, mal também não faziam... Eram as famosas aspirinas, que a tropa disponibilizava por grosso em grandes frascos de vidro.

Contudo a aspirina representava uma arma importante na "consulta da psico" e por isso não convinha dar-lhe um estatuto vulgar. E até porque se tratava de um genérico, era pomposamente designado pelo nome do seu composto activo: ácido acetilsalissílico.

Então era assim: o doente fazia as suas queixas mais ou menos vagas, na maior parte dos casos com ajuda de um intérprete mais ou menos eficiente. 


Havia então que colocar uma máscara de credibilidade, daquelas que os médicos usam invariavelmente e que, se não transmitem confiança por si sós, pelo menos afastam nos doentes as terríveis dúvidas sobre a omnipotência da medicina...

Num pedaço de papel meia dúzia de aspirinas e, solenemente:

-- Quando acorda toma um comprimido (o intérprete traduz e repete); quando o sol estiver assim (um gesto a indicar um ângulo agudo), toma mais um; (o intérprete traduz e repete); quando o sol estiver assim (um ângulo diferente) toma mais um (o intérprete traduz e repete); no segundo dia, quando acordar, um comprimido (idem, idem...). E a prescrição durava para aí dez minutos com repetições infindáveis, realçando que o comprimido era tão importante quanto a pontualidade na sua ingestão... É claro que se porventura a doença não saísse, a culpa seria do doente que não tinha tomado o comprimido à hora certa...

Bem, estes eram mesmo os "casos simples"! Mas havia os outros...

Massagens e Muita Fé...

     Era um mulher jovem, bonita e a simples tanga que usava pouco tapava do seu corpo escultural, a fazer inveja a qualquer misse europeia.. Mas era aflitivo vê-la contorcer-se com dores abdominais. Depois das primeiras perguntas aos acompanhantes, logo concluí que ela comera alguma coisa que visivelmente não tinha conseguido digerir. Mandei-a deitar no chão da tabanca e cuidadosamente apalpei-lhe o ventre nu, que estava rijo como uma pedra.

Num relance a memória fez-me recuar alguns anos e vejo-me em situação idêntica. Recordo com nitidez a maneira como a minha mãe, mulher simples e de fortes convicções religiosas, me livrou daquele tormento: massagens circulares e vigorosas com azeite quase a ferver por toda a zona abdominal, acompanhadas por uma ladainha que eu sempre tive como pedido de ajuda ao poder divino.

Na circunstância eu estava em desvantagem, porque não sabia a ladainha e faltava-me convicção. Mas não hesitei e mandei ferver uma caneca de azeite. 


Não me lembrei que naquelas paragens o azeite era um luxo praticamente desconhecido e por isso aceitei a substituição por óleo de palma.

Ajoelhei-me entre as pernas da bajuda em posição pouco ortodoxa para aquele fim e ali estive minutos incontáveis a tentar reproduzir as massagens que em tempos me aliviaram.

Ao óleo profusamente espalhado pela barriga, eu juntava grossas gotas do suor que me escorria pelo queixo. À minha volta o silêncio era total e eu sentia-me quase a desesperar porque me começavam a faltar as forças e o óleo se esgotava. De repente um forte estrondo saiu da barriga da mulher e, em torrente, deu-se a descarga geral. Levantei-me à pressa e saí a correr, fugindo do cheiro que acompanhou o alívio.

Minutos depois já eu tinha à minha frente uma limpa e saudável mulher a manifestar em dialecto uma sincera gratidão! 

Alcoologia

Era extremamente magro aquele homem de etnia papel que me apresentaram estendido numa esteira no interior de uma tabanca. Tinha sem dúvida mais de 70 anos e acabara de ganhar 20 pesos numa aposta: conseguira beber praticamente de um fôlego, uma garrafa de aguardente de cana. Pelo que me contaram, ele acabou de beber, estendeu a mão para receber o dinheiro e caiu inanimado.

Pensei na possibilidade de o transportar para o aquartelamento para o fazer levar ao médico em Bafatá na próxima coluna. Mas não me custou perceber que ele estava em coma profundo e que não aguentaria tanto tempo.

Quase sem pulsação, dificilmente conseguia ouvir-lhe a ténue batida cardíaca. Foi quando me lembrei de mandar dar-lhe uma injecção de coramina. Ao mesmo tempo acompanhava-lhe a respiração só perceptível através de um pequeno espelho junto da sua boca. Minutos depois o espelho permaneceu seco. Anunciei a morte esperada e fiquei a ver levarem o corpo para a tabanca.

Foi inevitável o grande desânimo que me invadiu, ao mesmo tempo em que me interrogava se a injecção teria contribuído para o desenlace. Uma interrogação que me acompanhou pelos dias seguintes, até que o médico do Batalhão me tranquilizou. A morte do apostador era mesmo inevitável.

Mesmo assim ficou-me a dúvida se a minha intervenção seria aceite pacificamente pela comunidade papel. Mas a dúvida foi desfeita no dia seguinte quando uma comitiva se deslocou ao quartel com a missão de me convidar para o funeral.

É claro que não podia rejeitar o convite. Fiz-me acompanhar de uma pequena escolta e lá me apresentei na tabanca, ainda assim apreensivo quanto à forma como seria interpretada a minha intervenção.

Mas depressa afastei os receios, ante a cordialidade e o respeito com que me receberam os familiares e os responsáveis hierárquicos da aldeia.

Quis ver o corpo, pelo que entrei na casa principal da tabanca, feita de paus unidos por uma massa de barro.


Entre os umbrais da porta estreita perscrutei a escuridão no interior e não vi o corpo. E quando me voltei para sair deparo com o cadáver praticamente em pé, amarrado a dois paus e encostado à parede interior, junto à porta. Não consegui evitar um sobressalto, o que provocou alguns sorrisos nos presentes.

Mas o bizarro da situação não terminava aí. Claro que não existia cemitério e que o corpo teria de ser enterrado ali perto. Não tardei em descobrir um buraco a poucos passos do que fora a residência do falecido. Mas era evidente que os 50 a 60 cm de diâmetro e cerca de um metro de profundidade não eram suficientes para o efeito. Mais perto constatei que, ligado àquele buraco vertical, partia em ângulo recto um pequeno túnel horizontal.

Fazer com que o corpo já em semi-rigidez entrasse completamente no túnel foi obra para quatro homens. Depois de ter desaparecido por completo sob a terra, foram cuidadosamente colocados junto ao corpo alguns objectos que obviamente, tinham tido especial significado na vida daquele homem. Depois de mais esse gesto ritual acompanhado atentamente pelos familiares, o buraco vertical foi então tapado com terra bem compactada.

A explicação daquele ritual, não tardei em sabê-la. O povo papel, entre outros em África, acredita que a alma do ente querido irá sofrer na eternidade, se o seu corpo for enterrado sob o peso da terra. E assim, metido num túnel, é mais provável que a terra lhe não pese.

Terminada mais esta etapa que, naturalmente eu seguia com reverência, redobrou-se a intensidade dos cânticos e à volta da sepultura toda a gente dançava. Começaram então a surgir diversas iguarias e bebidas a que os convivas se atiraram prazenteiros. Era como se se tratasse de uma homenagem ao defunto, que soube acumular riquezas neste mundo. Se ele tivesse tido uma vida pobre ou mesmo modesta, o festim que se seguiu ao funeral não teria sido tão grande. Mas, afinal, quem estava a pagar aquilo tudo era o morto, que se tinha consolado com um litro da fortíssima aguardente de cana guineense. 

Obstetrícia

Madrugada alta acordei sobressaltado com a chamada da sentinela. Chegara um homem de bicicleta de uma tabanca distante, pedindo ajuda para uma mulher que estava há várias horas em trabalho de parto.

Tinha perfeita consciência de que ninguém entre as quatro dezenas de homens do pelotão podia valer à mulher naquela circunstância. E tentei explicar isso mesmo ao marido, mas em vão: mesmo aceitando que não havia ali um especialista, o homem sabia que, a haver alguma esperança, essa passava pela tropa. Quanto a mim, não se tratava já de fazer psico, porque era evidente a seriedade da situação, mas impunha-se fazer alguma coisa com urgência.

Acordei todo o pessoal na caserna improvisada num armazém e perguntei se alguém sabia alguma coisa de partos. Tornou-se evidente que o único contacto daqueles homens com um parto teria sido no seu próprio... À pressa organizei uma escolta e metemo-nos a caminho da tabanca no prega-saltos.

À chegada confirmou-se a gravidade da situação, já que praticamente toda a aldeia estava acordada. Aliás, não seria difícil avaliar a preocupação genuína daquela gente, sabendo como sabia que entre os fulas como entre a maior parte dos povos africanos é interdito a qualquer homem ver um mulher em trabalho de parto.

A grávida estava deitada dentro de uma cubata rodeada pelas mulheres mais velhas da aldeia que certamente já teriam tentado aplicar toda a sabedoria tradicional. À luz dos faróis do carro pude ver os esgares de sofrimento da pobre mulher, já exausta de horas de esforço. Apalpei-lhe a barriga, rija como uma pedra e não foi difícil concluir que a criança estava voltada no ventre, o que configurava a necessidade urgente de uma cesariana. E isso estava fora de qualquer hipótese.

Mas não hesitei em fazer a única coisa que estava ao meu alcance: mandei meter a mulher em cima da camioneta com destino a Paúnca. Logo veria da possibilidade de a mandar numa coluna a Bafatá, aos médicos do Batalhão. No íntimo eu sabia que as hipóteses daquela mulher ou, pelo menos, as da criança, eram muito poucas.

Com a pobre mulher aos saltos no Unimog foi longa e penosa a viagem de regresso ao quartel, onde chegámos com os primeiros alvores do dia. 

A grávida foi deitada na única cama da improvisada enfermaria e lembrei-me de mandar chamar à povoação uma mulher desembaraçada, mãe de muitos filhos de um comerciante também guineense. Essa pelo menos era certo que tivera vários contactos com situações de parto.

Podíamos ouvir nitidamente o coração do bebé e isso levou-nos a fazer mais umas tentativas de esforço, mas em vão. Até que, com a mulher aparentemente serena e eu sentindo-me perfeitamente impotente para sair do impasse, resolvi deitar-me um pouco porque também eu estava exausto.

Mas não tardou muito que voltasse a despertar com gritos de alegria:

- Está a sair! Está a sair!

Levantei-me de um salto e ainda cheguei a tempo de ver o que me pareceu ser a representação perfeita do verdadeiro milagre da vida.

Por estranho que pareça, acabava de nascer mais uma linda bajuda de etnia fula, fisicamente perfeita e aparentemente de boa saúde, a julgar pelos berros que ecoaram por todo o quartel. A completar o milagre, a felicidade visível de uma mãe que parecia ter já esquecido todo o sofrimento por que acabara de passar.

Fiquei naturalmente intrigado pelo desfecho da situação – o parto tinha sido perfeitamente normal, o que significava que, de alguma forma, a criança tinha voltado a assumir a posição de saída sem outra ajuda que não fosse a vontade e os esforços da própria mãe. Mais tarde em conversa com o médico, concluímos que o factor decisivo teria sido a viagem de camioneta nos caminhos acidentados entre a tabanca e o quartel que facilitaram ou mesmo provocaram a reviravolta do bebé no útero materno.

Se assim foi, talvez eu não tenha desmerecido de todo as manifestações de gratidão dos pais e de uma forma geral da população da tabanca. Nos dias seguintes recebi provas materiais dessa gratidão, na forma de fruta, ovos, galinhas e até um cabrito. Mas o que mais me enternecia nos meses seguintes, eram as manifestações de alegria de cada vez que passava pela aldeia. Mesmo que eu não me apeasse da viatura militar, alguém ia a correr buscar a criança, que me mostrava bem acima das cabeças, como se agitasse a bandeira da vitória da vida sobre a morte! 

Saúde Pública

Para além da usurpação das funções do médico também às vezes era chamado a intervir como veterinário. Mesmo que contra a vontade dos interessados, como foi o caso:

Longe dos principais centros urbanos onde, de alguma forma, a chamada civilização ditou as suas leis, nas povoações do interior funcionavam as regras da vida comunitária nos seus moldes mais puros. Para além dos quatro comerciantes europeus ou europeizados que constituíam o tecido económico da região, não existia qualquer espécie de abastecimento de géneros à população, normalmente dedicada à agricultura de subsistência. Mas o certo é que a hierarquia tradicional funcionava mesmo. O Cherne  ditava as suas regras, que eram escrupulosamente obedecidas.

De vez em quando, como que seguindo um apelo da natureza, a comunidade tinha de comer carne de vaca que era um bem escasso. Nunca soube muito bem como, mas a verdade é que aparecia no largo da aldeia a carcaça de uma vaca, que era repartida por toda a população, segundo critérios que nós também não compreendíamos lá muito bem.

Naquele dia vieram avisar-me que estava pronta para distribuição uma carcaça de boi que cheirava àquilo que era: carne podre. Com tonalidade esverdeada e em certos pontos praticamente preta, a carne exalava um cheio fétido que repugnava as nossas delicadas narinas de europeus.

Movido por genuína preocupação pela saúde das pessoas e temendo uma qualquer epidemia, imediatamente dei ordem para queimar toda a carcaça ali à minha frente.

Confesso que na altura não medi bem as consequências da minha decisão, mas hoje questiono-me sobre a real necessidade da intervenção militar naquele caso...

É que a reacção da população não se fez esperar: choveram os protestos e cheguei mesmo a temer uma revolta de consequências imprevisíveis. De nada serviram as minhas explicações transmitidas por intérpretes que, se calhar até nem traduziam tudo quanto eu dizia...

De qualquer forma o Cherne estava inabalável: a tropa não tinha o direito de tirar a comida da boca do povo e isso de carne estragada não fazia sentido, porque – asseguravam - a vaca até estava de boa saúde até ser abatida e o cheiro da carne era perfeitamente normal.

Bem, as coisas só serenaram quando eu prometi solenemente que toda a gente seria compensada com carne que a tropa ia fornecer.

Tive de cumprir a promessa nos dias seguintes, com recurso ao apertado orçamento do destacamento, naturalmente em prejuízo de um rancho mais variado para o pelotão.

Enfim, servira-me de lição... 

Regras de Etiqueta

A meia dúzia de comerciantes, entre europeus há muito radicados na Guiné, mestiços muito ligados à cultura europeia e pretos naturais do território mas também assimilados pela mesma cultura, formavam como que uma elite, vivendo integrados na sociedade local mas simultaneamente mantendo a separação natural ditada tanto pela cultura como pelo status social. Para o exército eles eram, antes de mais, a ponte incontornável no relacionamento com as populações indígenas. E era por isso imprescindível o estabelecimento de uma relação de confiança e até de cumplicidade com eles.

Foi com essa certeza que uma das primeiras medidas depois da rendição do pelotão anterior, foi a de convidar formalmente os seis comerciantes para um jantar no quartel com o alferes, o sargento e os três furriéis.

Pensando na necessidade de ultrapassar rapidamente o desconforto inicial, na certeza de que os comerciantes já tinham conhecido sucessivos pelotões, que normalmente eram rendidos de seis em seis meses, combinei uma estratégia com o pessoal da cozinha.


Assim, depois de um singelo aperitivo e quando os convidados esperavam à mesa pelos pratos e travessas, surge da cozinha uma pilha de caixas das mais simples rações-de-combate que todos tão bem conhecíamos e detestávamos.

Depois de um primeiro momento de sobressalto e como nós, os anfitriões, começávamos a retirar das caixas a lata de sardinhas, o pacote de bolacha de água-e-sal e a bisnaga de compota, os constrangidos convidados não tiveram outro remédio senão o de nos secundarem fazendo um nítido esforço para não mostrarem o desagrado que naturalmente todos sentiam.

Neste ponto resolvi intervir, mandando retirar as rações de combate:

- Meus senhores, os meus parabéns porque ultrapassaram a prova de fogo com muito fairplay. Sejam bem vindos a esta casa que é vossa também. E agora vamos então servir o jantar.

Seguiu-se uma explosão de riso que serviu para selar os princípios de descontracção e confiança que iam pautar as nossas relações durante a estadia do pelotão naquela zona. 

O Intérprete

Como o relacionamento entre a tropa e as populações só era possível na maioria dos casos através de um intérprete, esta figura ganhava um estatuto especial onde quer que a tropa se encontrasse quer acantonada, quer em operações.

O intérprete de Paúnca era um caso especial. Samba Jaló era de etnia fula mas dominava vários dos dialectos da zona. Seguia rigorosamente os preceitos do islamismo e possuía uma cultura invulgar. Lia e escrevia árabe fluentemente e o Corão era a sua companhia dia e noite. Conhecia vários países islâmicos e confessava que se estava a preparar para a sua peregrinação a Meca.

Um pouco místico, parecia alheado dos conceitos ideológicos dominantes e o facto de colaborar com o exército português aparentemente não lhe causava problemas de consciência. É certo que também mantinha os seus contactos e as suas amizades com o outro lado, com o inimigo. Mas a verdade é que conseguia aparentar um equilíbrio quase coerente de forma a manter a confiança de ambas as partes. Do meu lado, é evidente que lhe não confiava os segredos militares, mas também é verdade que nunca esperei dele uma traição .

Por outro lado, o facto de conviver com as culturas árabe, africana e europeia levaram-no a desenvolver um certo instinto sociológico. Era também um psicólogo nato, com um apurado sentido de humor, que muitas vezes o levava a deixar esticar o ridículo ou o constrangimento até aos limites, só para estudar uma reacção ou arrancar uma saborosa gargalhada.

Assim aconteceu, por exemplo, no primeiro dos baptizados a que assisti. Era costume que o militar mais graduado fosse o padrinho de todas as crianças nascidas na povoação, isto é, desse o seu nome e custeasse parte dos festejos. E não havia maneira de fugir a mais esse encargo. O que vale é que a despesa era suportável...

Costumes diferentes, língua diferente, eis uma situação que ilustra a inevitabilidade de um intérprete. Samba Jaló era imprescindível na circunstância, tanto mais que eu precisava da tradução do que era dito, mas sobretudo do significado de cada um dos gestos e situações em que eu estaria envolvido.

Por conseguinte, não havia mais do que confiar cegamente no Samba Jaló, mesmo sabendo que ele não me pouparia ao eventual ridículo ou constrangimento. Assim, foi inútil tentar que ele me preparasse para o que se iria passar. Apenas dizia, num grande sorriso:


- Alferes vai ver...

Depois de uma cerimónia em que se convocavam os espíritos para garantir a felicidade do novo membro da comunidade, o bebé foi passando de mão em mão pelas dezenas de convivas sentados em circulo no centro do terreiro. Pouco depois começaram os cânticos e as ladainhas que eu, naturalmente não entendia e que não era prático traduzir.

Samba Jaló tinha-me avisado de que eu deveria levar muitas moedas e só aí eu compreendi para quê: de cada vez que nas ladainhas ou nas canções era pronunciado o meu nome, os olhares voltavam-se para mim e uma mão se estendia imperativa para receber a moeda. O que aconteceu pelo menos duas dezenas de vezes... Até aí tudo bem, uma vez que eu ia preparado para o efeito.

O problema surgiu quando trouxeram uma grande panela contendo uma papa escura e gordurosa que foi colocada no centro do circulo, assim como algumas cabaças e garrafões.

Começava o festival de gastronomia e os meus receios começavam também a tomar corpo. Em folhas de árvore a servir de pratos, começou a ser distribuída a papa retirada da panela com os cinco dedos da mão do cozinheiro, que tanto mergulhavam na panela para retirar a massa, como de seguida iam à sua boca em gesto prazenteiro.

Cada conviva segurava entre as mãos a folha de árvore com a massa gordurosa e ficava à espera que todos os outros fossem servidos. Era evidente que se tratava de um ritual importante na circunstância e eu comecei a ficar preocupado com os vómitos que me iam chegando à garganta. Aflitivamente eu olhava para o Samba Jaló, como que a pedir que viesse em meu auxílio. Em surdina perguntei-lhe se não havia maneira de me livrar discretamente do meu quinhão daquela papa. Punha um sorriso matreiro e garantia:

- Alferes tem de comer se não eles ficam muito ofendidos...

No meu íntimo eu já tinha decidido que não levaria à boca aquela mistela, fossem quais fossem as consequências. Mas, in extremis, quando já todos saboreavam o petisco e os olhares se voltavam para mim, Samba Jaló levantou-se, tirou-me o prato das mãos e foi colocá-lo ao pé da criança que estava a ser baptizada. Depois, solenemente, anunciou que aquele gesto significava que eu, como padrinho, me comprometia a garantir para sempre o sustento daquela criança... 

Desratização

A despensa do aquartelamento era um anexo construído com tábuas e folhas de zinco. Durante meses a fio, os sacos de batatas, farinha, arroz, grão, feijão, as latas de azeite e óleo, bacalhau, os enchidos, isto é, todas as provisões para abastecer uma cozinha para 43 homens, amontoavam-se naquele cubículo de 5 a 6 metros cúbicos num soalho de tábuas sobre terra batida.

Um belo dia vejo sair uma grande ratazana por entre as frestas e rapidamente procedi a uma inspecção sumária. Não havia dúvida de que aquele rato não estava sozinho e que, a julgar pela barriga do bicho, alimento não faltava àquela família de roedores... Impunha-se uma desratização a preceito e logo ali foi nomeada uma brigada de intervenção.

Depois de retirados todos os géneros e logo que foi levantada a primeira das tábuas do chão, sob os nossos olhos surgiram dezenas de ratos que esbaforidos se espalharam por todo o lado. Com todo o pessoal a cercar o recinto, rapidamente se retirou o soalho inteiro e então foi o grande espectáculo. Como num filme de terror, os ratos pareciam brotar do chão, às dezenas, de todos os tamanhos, como grandes coelhos bem nutridos, até dezenas de ninhos com montes de ratinhos de pele rosada.


É certo que alguns terão escapado, mas a grande maioria foi esmagada à paulada logo ali ou capturada. Já escurecia quando a repelente tarefa se deu por concluída. E como para grandes males são aconselháveis grandes remédios, pegámos fogo ao que restava da despensa toda ela considerada infestada pelos ratos.

Foi assim como que uma fogueira de S. João, que serviu para a descontracção do pessoal. Mas o melhor estava para vir, com a escuridão. Com dezenas de ratos capturados vivos, logo alguém se lembrou de organizar uma espécie de corrida de ratos, ao longo da parada e, naturalmente começaram as apostas. Tudo bem, uma vez que a sorte dos bichos já estava traçada...

Faltava o requinte: alguém mais se lembrou de encharcar os bichos com gasolina , pegar-lhes fogo e largá-los parada fora. Como num verdadeiro fogo de artifício, por entre gritos de entusiasmo, dezenas de tochas atravessavam a parada, mas as apostas ficaram sem efeito porque a confusão foi total. Houve gritos de entusiasmo, gargalhadas, enfim um pretexto para a necessária descarga emocional de que todos nós precisávamos.

O pior foi que o jantar era logo a seguir e, por curiosa coincidência (ou talvez não) a ementa era... coelho! 

Dia de São Cinema

Em ambiente militar, numa pequena povoação perdida no interior da Guiné, o mais singelo desvio da rotina é acontecimento marcante, que preenche as conversas de vários dias. É evidente que não falo dos episódios directa ou indirectamente relacionados com a guerra, essa sim a razão de ser da nossa missão e o fantasma omnipresente a condicionar pensamentos, sonhos, ilusões. Talvez por isso mesmo, a importância que ganhava tudo o resto.

Numa realidade que não incluía rigorosamente qualquer ingrediente cultural, a possibilidade de se ver cinema ao ar livre era uma hipótese que ninguém teria ousado admitir. Mas em África muitas vezes é possível o impensável...

Era uma figura típica o sr.Manel, aquele septuagenário de longas barbas brancas que se dedicava a levar o cinema às povoações mais recônditas da Guiné. Dezenas e dezenas de anos de África já o tinham feito praticamente esquecer o seu cantinho natal em Trás-os-Montes. Tão famoso como o sr. Manel só mesmo a sua carripana, uma carrinha aparentada do Ford de Bigode, de caixa aberta e cujo motor de arranque era ainda a manivela frontal. Nela carregava todo o material do cinema ambulante, a começar por um gerador eléctrico, o projector, a tela, até às estacas e às lonas que serviam para delimitar o recinto e assim impedir que alguém visse os seus filmes à borla... Como companhia, um ajudante, nativo de porte vigoroso e um pequeno rafeiro que se considerou adoptado quando lhe matou a fome na primeiro vez em que o viu.

Nem mesmo a eclosão da guerra impedira que o sr. Manel continuasse a levar a sétima arte aonde quer que meia dúzia de pessoas pudesse pagar um bilhete. Isso acontecia, naturalmente, nas concentrações da tropa portuguesa, onde se juntavam também os comerciantes da zona. Mas a verdade é que o sr. Manel tinha também de pagar o preço da liberdade com que percorria as estradas e as picadas sem ser incomodado: onde quer que existisse um grupo de guerrilheiros, lá tinha de dar uma sessão à borla. É claro que sob o mais rigoroso sigilo e sem conhecimento oficial das autoridades portuguesas. De resto, o sr. Manel fazia questão em que se soubesse que ele não percebia nada de guerra nem de política. Em abono da verdade, nem de cinema percebia lá grande coisa...

Em seis meses era a segunda vez que o sr. Manel levava o cinema a Paúnca. A meio da manhã o grito das sentinelas dava a saber que se aproximava a barulhenta camioneta e começava o reboliço. A primeira paragem era no aquartelamento da tropa, onde pedia três ou quatro voluntários para o ajudarem a montar o cinema, a troco do bilhete de ingresso. Cravava também o almoço, este a troco de nada.


Ao princípio da noite, reforçada a vigilância e o patrulhamento da povoação, lá íamos para o cinema, muitos de nós sem sequer sabermos o nome ou o género de filme que íamos ver.

Afinal tratava-se de um drama histórico, uma das sagas da inefável Sissi, imperatriz da Áustria, que a actriz Rommy Schnneider interpretava com sucesso. Não era certamente uma obra prima, mas era um filme susceptível de dispor bem um punhado de homens isolados há tempo nas matas africanas.

Depois das peripécias da entrada no recinto, marcada pela preocupação do bom sr. Manel de assegurar que ninguém ia ver o seu filme à borla, eis-nos instalados em filas de tábuas como bancos corridos, na esperança de que a animação na tela desviasse a atenção do barulho infernal do gerador ali muito perto.

Lá começou a projecção de uma película muito gasta mostrando as imagens distorcidas pelo ondular da tela improvisada. Mas, pronto, não adiantava reclamar e toda a gente prendeu a atenção na história cor-de-rosa da pretendente a consorte do imperador austríaco, até ao intervalo marcado pelo final da primeira das três bobinas de película.

Poucos minutos depois do recomeço da sessão levanta-se um coro de protestos num crescendo de intensidade: alguma coisa acontecera uma vez que a narrativa perdera a sequência e a trama deixara de fazer sentido. Não havia dúvida de que o bom do sr. Manel trocara as bobinas do filme e o que estávamos a ver era já a última parte.

Aumentaram os protestos, forçando à interrupção do filme. Mas o sr. Manel era teimoso: enfrentando a plateia, garantia que a sequência estava correcta, que já tinha passado dezenas de vezes aquele filme e que nós é que não percebíamos nada de cinema.

Como não podia deixar de ser, ele é que levou a melhor e lá continuámos sentados, mesmo com os protestos a subir de tom. Cerca de meia hora depois é que foram elas, quando se viram as cenas do casamento, a apoteose final e, indesmentivemente as palavras The End.

É claro que a partir daí a parte intermédia do filme perdera todo o interesse e alguns começaram a sair. O sr. Manel, que então já admitia o seu engano, esforçava-se por convencer que a troca não tinha importância, que aquela segunda parte era a mais interessante... mas lá acabou por prometer respeitar a sequência e repetir a parte já vista.

Realmente só as circunstâncias podiam explicar a razão por que a maior parte dos homens ali se manteve até final... 

A Arma do Capelão

Tal como o médico, o capelão era uma das figuras tutelares do Batalhão. Depois de uma instrução militar básica o jovem padre, na maior parte dos casos acabado de ordenar, era graduado em alferes e incorporado num batalhão.

Como é óbvio, dele ninguém esperava um grande rigor militar e muito menos qualquer atitude bélica... Mas não se pode esquecer que, para exercer o seu múnus, o capelão tinha a guerra por cenário e muitas vezes como palco.

Como o médico também o capelão se desdobrava pelos diversos destacamentos, nomeadamente de companhias isoladas. Bem vistas as coisas, em missões idênticas, porque se o primeiro atendia as necessidades do corpo, o capelão atendia as da alma, às vezes tão ou mais urgentes que aquelas...

O padre Ribeiro era um padre consciencioso e de qualidades humanas excepcionais. Aparentemente era o homem mais alegre e tranquilo de todo o batalhão e nada indiciava que se sentisse deslocado naquelas paragens.

A sua figura era a de um autêntico beirão saído de uma pequena aldeia do interior, estatura meã e faces rosadas, sempre bem escanhoado e penteado a preceito. É verdade que a farda não assentava nada bem às suas feições e às suas maneiras vincadamente civilistas. Mas não era por desmazelo, já que ele se esforçava por manter a postura garbosa que supostamente a condição militar impõe.

Esforçava-se também por se integrar no chamado convívio da caserna e cedo deixou de corar ao ouvir o calão ou as tradicionais imprecações. Só que a ele ninguém ouvia qualquer palavra menos ortodoxa e as imprecações que soltava de vez em quando limitavam-se ao "chiça!", "bolas" e pouco mais.

Coerente, sempre recusou usar uma arma, nem mesmo a pistola que o regulamento recomendava. E quando se lhe chamava a atenção para o dever de defender a sua própria vida, muito simplesmente mostrava o pequeno breviário que sempre o acompanhava.

Outra coisa de que ninguém conseguia demover o jovem Capelão era a sua 

vontade obstinada de acompanhar a tropa em todas as circunstâncias, insistindo em que o seu lugar era junto dos soldados, mesmo em operações na mata. Desde que

nenhuma cerimónia ou dever religioso o prendesse ao quartel, era vê-lo atarefado a ajudar os soldados nos preparativos finais de partida para uma operação.

Não se podia dizer que aquela fosse uma operação especialmente perigosa, já que não se tratava de um ataque planeado. Era uma simples patrulha daquelas a que chamávamos de gasta-solas, mas que não deixava de incluir os riscos normais numa zona de guerra.

Mesmo assim eu preferia que o capelão não nos acompanhasse porque, embora ele fizesse tudo para o evitar, não deixava de representar mais uma responsabilidade a juntar a tantas outras. Mas não adiantava argumentar...

Durante a marcha procurava ser discreto e passar por um simples soldado de infantaria, suportando com estoicismo o calor tropical que nos deixava a camisa a escorrer e atento aos sons e outros sinais de perigo, já que sabíamos que o inimigo andava ali por perto.

Tanto assim era que, por volta do meio dia caímos numa emboscada. Rapidamente nos atirámos para trás do primeiro abrigo, como mandavam os compêndios. Na circunstância um morro de baga-baga serviu à perfeição para abrigar três homens. Um deles, o bom do padre Ribeiro, tinha ali o seu baptismo de fogo o que bem se notava pela tradicional lividez do rosto e tremor das mãos, que todos nós já experimentáramos.

Enquanto nós ripostávamos com rajadas de G-3, ouvimos o bom do capelão gritar:

- Porra!, porra!, porra!, porra!, porra!, porra!, porra!, porra!...

Infindavelmente e à cadência precisa das rajadas das metralhadoras...

Felizmente não houve consequências dessa vez em que o nosso capelão teve o seu baptismo de fogo.

E, muito importante: a partir desse dia todos ficaram a saber que a arma de defesa do capelão tinha um nome... 

Gravidez... sem Gravidade

Djama Saló era um comerciante guineense que, para além da habilidade comercial tinha outra característica: era pai de numerosa prole, em que predominava o elemento feminino. O facto de lidar de perto quer com os militares portugueses quer com os outros comerciantes também de cultura europeia, induzia-o a estabelecer o protótipo do genro que pretendia para si próprio. E não lhe era difícil escolher entre o leque de três ou quatro dezenas de soldados, a maioria dos quais não desdenhava o assédio de raparigas bonitas, jovens e disponíveis como eram as filhas de Saló.

Mas cedo se lhe tornou evidente que as suas filhas não arranjariam marido entre os soldados, por métodos "naturais". Concluiu que seria necessária uma ajuda paterna para o efeito.

Era notório o agrado com que ele acolhia os namorados das filhas, cuja escolha ele próprio ia orientando. Mas melhor que ninguém ele sabia que a situação dos militares era instável e que por isso mesmo não havia tempo para namoros prolongados.

Quando pressentiu que a rendição da nossa unidade estava iminente, o bom 

do Saló tratou de apertar o cerco, mas sem dúvida subestimou a inteligência alheia, ao pretender que dois determinados soldados tinham engravidado duas das suas filhas.

Não é que tal coincidência fosse impossível, mas tudo apontava para uma manobra que, se não visava o compromisso nupcial, visava certamente obter uma qualquer indemnização por danos eventuais...

Apresentada por Saló a queixa contra os dois presumíveis estupradores, houve que organizar um processo ad-hoc e tentar apurar responsabilidades. Não foi difícil aos acusados refutar a alegada paternidade, tendo apresentado inclusivamente alguns colegas que disputavam entre si a ordem cronológica das relações com as raparigas. Por outro lado, requeriam exames periciais porque tudo indicava que a gravidez fosse forjada.

Da parte de Saló não houve muita insistência e as coisas acabaram por ficar como estavam, prolongando o celibato das raparigas que, não custava acreditar, estariam já a preparar a próxima recruta...

Tive a confirmação mais tarde, com o relato da repetição da cena que, pelos vistos, terá tido tantos capítulos quantas as companhias que por ali passaram..

Escriba e Conselheiro

Numa época em que o telemóvel se tornou um apêndice natural, em que a Internet permite a comunicação multimédia instantânea, em que correio e encomendas circulam à velocidade do jacto para qualquer parte do globo, é difícil avaliar a importância de uma carta ou de um simples aerograma para quem, em situação de guerra, passa meses consecutivos em pleno mato, sem acesso a um simples telefone.

Os destacamentos na Guiné eram servidos unicamente pelo correio militar, que mais não era, por sua vez, que uma das formas da comunicação interna no exército, sujeita às prioridades e às contingências da própria guerra.

A chegada do correio estava assim dependente da frequência das colunas terrestres, já que os transportes aéreos militares eram escassos até para as missões de guerra... Digamos que, no sítio em que nos encontrávamos, mesmo junto à fronteira com o Senegal, a frequência média da chegada do correio era de duas a três vezes por mês. Para contrabalançar as semanas em que chegavam dois correios, havia outras em que, por uma ou outra razões, simplesmente não havia correio.

E que drama, quando havia expectativa de uma carta e ela não vinha! A ansiedade, a desilusão e depois a revolta dos soldados, eram factores de pressão que chegavam a ser insuportáveis.

Quando havia correio o cerimonial da distribuição através da chamada em voz alta era digno de um filme de Hitchckock. Os olhos fixos no graduado que fazia a chamada e o engolir em seco após cada nome tornavam aqueles minutos comparáveis aos que antecedem os momentos mais decisivos da vida.

Depois cada um procurava o maior isolamento possível para absorver as palavras escritas tão longe dali. Ou para remoer a frustração, no caso de não ter sido contemplado dessa vez.

 

Naquela altura não tinha sido ainda inventada a palavra literacia, nem a realidade do analfabetismo estava honestamente equacionada na sociedade portuguesa. Sabia-se apenas que era grande a taxa de analfabetismo e que muitos dos que não eram oficialmente considerados analfabetos, mal sabiam soletrar e muito menos relacionar a palavra escrita. Por isso eram muitos os que se socorriam de colegas para poderem comunicar com a família. E dentre estes, alguns relutavam em confiar os seus segredos mais íntimos aos companheiros de caserna e por isso recorriam ou ao furriel ou ao alferes.

Pela minha parte nunca fui capaz de abrir uma carta minha sem atender a meia dúzia de soldados que olhavam para mim com ansiedade acrescida. Isolava-me com cada um e lia-lhes as suas cartas, escutava em silêncio as suas observações, algumas vezes lhes estendi o lenço para enxugarem as lágrimas. Só muito depois eu me recolhia para ler o meu próprio correio e apaziguar as minhas ansiedades.

Nessa mesma noite ou logo no dia seguinte era certo que já um ou dois deles me vinham com o bate-estradas em branco para me ditarem as respostas às cartas que tinham recebido. Era uma tarefa irrecusável, em que eu despendia uma boa parte dos meus ócios. E em que tinha de exercitar todas as capacidades de compreensão e de expressão dos sentimentos humanos. E às vezes de representação...

Nada no seu comportamento indiciava que o José fosse um tipo sem sorte. Mas eu sabia, melhor do que ninguém que, também neste caso, as aparências iludem.

Depois de uma infância marcada pela violência que caracterizava a pobreza no interior do país, o Zé perdeu o pai muito cedo e no início da adolescência já tinha sobre os ombros a responsabilidade do sustento da mãe e de uma caterva de irmãos. Trabalhava de sol a sol na terra avara que nem era sua, tratava dos animais que também não eram seus, derreava diariamente até à exaustão o seu corpo, o único bem que realmente podia considerar seu, pois só o partilhava com Deus, como ele próprio dizia. Por isso é que, por mais dura que todos considerássemos a tropa, para ele era como se estivesse num campo de férias.

Era evidente que até àquela altura o Zé nunca soube o que eram ócios, férias, tempos livres ou outros luxos idênticos. Por via disso, escasso também lhe tinha sido o tempo para deitar uma olhadela atenta às raparigas da terra. Mas a Natureza tem solução para tudo ou como quem diz: se o Maomé não vai à montanha, vai a montanha ao Maomé.

A Rosalinda nunca ouvira falar nesta máxima, mas isso não impediu que se aproximasse do Zé, que pouco depois se considerasse conversada e logo a seguir namorada. Só não juntaram os trapos definitivamente porque a tropa estava próxima e havia que esperar.

Quando pela primeira vez o Zé me veio pedir para lhe escrever uma carta para

a Rosalinda, depreendi que alguma coisa de mais sério se estava a passar,
uma vez que até aí ele tinha confiado essa tarefa a um colega do

pelotão. Realmente, o que ele me ditava era já do foro íntimo de um casal e, no seu entender, um homem já casado e pai de um filho, como eu, o seu alferes, oferecia muito mais garantias de descrição do que qualquer dos seus colegas.

Acontecera que recentemente a Rosalinda lhe mandara dizer que estava grávida e isso vinha alterar grandemente o tom do diálogo que até aí tinham mantido.

No seu espírito de homem muito simples pairava uma grande confusão de sentimentos. Talvez o mais forte deles fosse um certo remorso pelo facto de não ter oficializado a união com a Rosalinda. Para além desse, as muitas dúvidas sobre todo o processo da concepção e gestação de um filho. E muitas preocupações quanto ao futuro da Rosalinda e do filho, já que o seu próprio futuro, esse, estava a ser construído ali na Guiné, no dia-a-dia da guerra, carregado de incertezas.

Eram essas preocupações que eu tentava traduzir da forma mais simples que podia nas frases que ele me ditava, tentando ser o mais fiel possível ao seu próprio vocabulário. Mas cedo me assaltou o pressentimento de que alguma coisa ultrapassava o sentido restrito das palavras que a Rosalinda ditava para alguém e que eu lia ao Zé. E decidi ajudá-lo a reflectir sobre tudo aquilo.

Da leitura das últimas cartas ressaltava a preocupação da Rosalinda de preparar o Zé para a possibilidade de antecipação do parto. Não deixava dúvida a ideia de que ela acreditava que a criança nasceria em breve e antes do tempo da gestação normal. Mas eu reparei que ela não falava em problemas de saúde, seus ou do bebé, que pudessem eventualmente determinar a antecipação do parto.

A desconfiança levou-me a aprofundar os pormenores íntimos da relação que o Zé, embora com natural desconforto, me foi contando. E como um detective na investigação de um crime, fui juntando os elementos do puzzle em que fora transformada a vida do Zé.

A situação mais parecida com uma relação sexual e a única que poderia ter resultado na gravidez, acontecera no período de entre duas a três semanas antes do embarque para a Guiné. Ao aprofundar as condições em que se deu tal "encontro" um tribunal não teria dúvida em qualificá-lo na categoria de "assédio", mas isso não vem ao caso porque, pelos vistos, o Zé até gostou da experiência...

Uma simples operação de somar em que entravam como parcelas as duas ou três semanas antes do embarque e os cerca de 5 meses que levávamos de Guiné e a conclusão era a de que o Zé não podia ser pai, pelo menos de forma natural, na data que a Rosalinda "adivinhava".

Quando a evidência se tornou incontornável, deixei que ele manifestasse livremente a sua justa fúria, com muitos impropérios e alguma cerveja. E, para que o pudesse fazer com alguma serenidade, decidi adiar para o dia seguinte a carta com que ele se propunha reabilitar a sua dignidade de homem.

Realmente pareceu-me bastante mais calmo quando, no dia seguinte ele se sentou à minha frente e me começou a ditar martelando as palavras:

- Sua p... duma cabra. Puseste-me os cornos...

A minha primeira reacção foi tentar suavizar as expressões e sugeri-lhe alguns sinónimos menos vernáculos, mas o Zé não foi nessa: era assim mesmo que ele queria, preto no branco.

Talvez porque não me achasse suficientemente duro ou concluísse que o meu entendimento da língua portuguesa se limitava aos floreados líricos que vinham escritos nos livros, o Zé olhou-me de olhos muito abertos e repisou:

- Meu alferes, é assim mesmo que eu quero que vocemecê escreva. É assim que na minha terra fala um homem corneado!

Vendo-lhe tanta determinação e, confesso, levado pelo meu próprio julgamento da situação, achei que a Rosalinda bem merecia aquela dureza e fui assim levado a escrever pela primeira vez numa carta, expressões que eu só aceitava ouvir e pronunciar na tropa.

A resposta chegou na semana seguinte e para nossa surpresa a Rosalinda mostrou-se conformada e arrependida. Pedia muito perdão e reafirmava todo o seu amor pelo Zé. E dizia-se conformada com o seu castigo de ter de criar o filho sem o pai já que, dizia ela, também fora enganada pelo verdadeiro progenitor que negava a paternidade.

Semanas depois não me surpreendi quando o Zé me veio pedir para voltar a escrever à Rosalinda. Em resumo, ele queria saber do bebé e oferecer-se para padrinho, mas só no caso do pai não o querer perfilhar.

Escrevi tal como ele ditou, li-lhe o aerograma e fechei-o. Notei que ele olhava para mim de soslaio com um olhar que continha um mundo de justificações.

Não o deixando falar, sorri-lhe e dei-lhe uma palmada no braço com toda a força da cumplicidade masculina. 

A Importância da Pontaria...

Há muito tempo que os altos comandos preparavam uma operação de envergadura para Naga, na altura uma das zonas mais inóspitas no teatro de operações da Guiné, onde o PAIGC mantinha tranquilamente há muitos meses uma importante base de apoio. Para além de zona de treino de guerrilha existia escola, posto médico e outros equipamentos, a servir uma significativa concentração populacional, Bissum.

A operação vinha sendo preparada com muito sigilo já que seria decisivo o factor surpresa. O objectivo consistia em instalar um novo aquartelamento a nível de companhia para colmatar uma notória lacuna na malha da quadrícula militar.

Na altura o meu batalhão original ocupava a zona de Bula, a norte de Bissau, e a minha companhia tinha as funções de companhia de intervenção. Significava o permanente estado de prontidão para acorrer a qualquer situação inesperada, como fosse a reacção imediata a um ataque ao quartel ou à povoação, o auxílio ou o reforço a uma outra força no exterior, ou as operações programadas, como a montagem de emboscadas nos caminhos de acesso à povoação ou a escolta para transporte de armamento ou alimentos a outro quartel.

Designada outra companhia para ocupar o quartel a construir em Bissum, foi esta reforçada com um pelotão da dita companhia de intervenção, na circunstância o meu, para além do pelotão de sapadores especializado na construção de edificações militares, minagem e desminagem, montagem de armadilhas, etc.

A operação envolvia várias fases, a primeira das quais era a chegada de surpresa ao local, primeiro em coluna apeada e depois em lanchas da marinha, já que a zona de Naga era atravessada pelo rio Cacheu e a clareira onde nos pretendíamos instalar era praticamente ribeirinha. Muito perto existia a já referida povoação de Bissum, nome que, naturalmente passou a designar o futuro quartel.

Para que o assalto ao objectivo fosse feito aos primeiros alvores do dia, como aconselham os manuais, a saída de Bula fez-se ainda antes da meia noite. Mais de duas centenas de homens, primeiro em viaturas, depois em LDM rio Cacheu acima até a alguns quilómetros do objectivo e finalmente o assalto a pé.

Até ao momento decisivo do ataque foram sete horas de grande tensão e expectativa já que, para manter o segredo e evitar que algum dos espiões que pululavam no quartel fizesse anular a surpresa, apenas os oficiais conheciam o plano da operação e mesmo estes só parcialmente - o estritamente necessário para o seu desempenho, fase por fase.

É o género de operação que causa maior stress aquela em que caminhamos passo a passo para uma situação de perigo iminente, sem sabermos 


exactamente do que se trata. Tensão agravada pelo cansaço prematuro já que a maior parte do pessoal não tinha conseguido pregar olho nas 3 ou 4 horas que lhes foram dadas desde a ordem de preparação até ao momento da saída do quartel.

A mão crispada em torno do punho da G-3, a língua retesada dentro da boca seca, as gotas de suor que iam rolando da testa e aquela proibida vontade de encher o mais fundo das entranhas com o fumo de um cigarro, tudo isto enforma uma sensação única e por isso inesquecível.

Tanta precaução com o sigilo parece ter resultado, a julgar pela maneira precipitada como a população de Bissum fugiu mata fora, ao primeiro sinal da nossa presença. Apenas os porcos, cabritos e galinhas vagueavam assustados por entre as casas quando a atravessámos em direcção à clareira próxima, onde se começou imediatamente a assentar as bases do futuro quartel.

Montado o dispositivo de defesa o meu pelotão foi incumbido de patrulhar a zona, tendo então especial cuidado com a povoação abandonada à pressa. Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde a população teria de regressar a suas casas, sobretudo quando se apercebesse que a presença da tropa seria definitiva. Vasculhámos a mata palmo a palmo, encontrando vestígios nítidos da fuga precipitada. A seguir foi a própria povoação a ser inspeccionada.

Quando nos aproximávamos vimos o vulto de um homem que saía a correr de uma das casas. Imediatamente se levantaram três dezenas de G-3 prontas a abrir fogo.

Apesar do cansaço e da tensão, apercebi-me num relance de milésimos de segundo que o homem levava alguma coisa na mão mas que decididamente não era uma arma. Imediatamente dei um grande berro e mandei que ninguém atirasse. Levei eu a G-3 à cara e disparei um, dois, meia dúzia de tiros cujos projécteis passaram bem acima e ao lado do turra, que fugiu espavorido. Ainda se esboçaram gestos de perseguição ao fugitivo, mas também isso eu consegui impedir.

A situação justificava quebras de disciplina e por isso só consegui esboçar um sorriso de cansaço tranquilo, quando ouvi vários:

-- Seu pexote!... Seu pexote!...

A partir desse episódio ficou seriamente abalado o meu prestígio como atirador especial, qualificado com uma das notas mais elevadas no curso de oficiais milicianos. Mas não cuidei em desfazer a má impressão e só bastante mais tarde adiantei a justificação de tal imperícia.

Ainda hoje não sei se a aceitaram, mas consola-me a ideia de que alguns terão compreendido a razão por que aquela foi uma das atitudes em combate de que me orgulho ainda hoje. 

The Portuguese Way

Na altura da guerra da Guiné os Estados Unidos experimentavam no Vietnam talvez das maiores dificuldades por que passaram as forças armadas americanas ao longo da sua história.

Por um lado isso era positivo para Portugal, já que ajudava a desviar as atenções mundiais das três guerras que Portugal travava, para o conflito de muito maiores proporções e em que mais directamente se defrontavam as duas superpotências. O lado negativo da questão era o facto de os Estados Unidos se sentirem na obrigação de fazer concessões no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por exemplo aprovando o boicote do fornecimento de material bélico a Portugal. Ora, como grande parte do armamento português era de origem americana foi nessa altura que as nossas forças se ressentiram com a falta de munições, nomeadamente de bazooka e de morteiro, pelo menos enquanto não foram estabelecidos canais alternativos que permitiram continuar a adquirir o armamento, mas utilizando países intermediários, principalmente a Espanha de Franco.

Isso não impedia que os oficiais americanos tivessem muito interesse e por isso seguissem com a maior atenção a guerra portuguesa. Sobretudo na Guiné onde o grau de preparação dos guerrilheiros, o seu armamento e as condições do terreno mais se assemelhavam às do Vietnam. Acima de tudo interessavam-se pelo estudo das soluções que o exército português adoptava nas situações concretas da contra-guerrilha.

Era frequente, por isso, a visita ao teatro das operações de oficiais americanos, com patentes de major a coronel e alguns deles não se contentavam em assistir aos brieffings e faziam questão de acompanhar a tropa no terreno.

Nessas circunstâncias e como se tratava de um elemento não combatente a integrar a coluna em operações, a necessária protecção do oficial americano representava sempre uma sobrecarga para o comandante da coluna. Mas verdade seja dita que eles não descuravam a sua condição de militares e procuravam não perturbar o desenrolar das operações.

No entanto nem sempre era fácil camuflar o visitante americano no nosso esquema. Num caso o coronel, muito embora vestisse um dos nossos

camuflados, sobressaía nitidamente na coluna porque ultrapassava em mais de 20 centímetros a média da altura dos portugueses. Quando lhe fiz notar esse facto ele pareceu não se incomodar muito com a possibilidade de ser alvejado com maior facilidade e retorquiu com humor:

- Sou o periscópio!

É evidente que essa foi a alcunha que o identificou até ao fim...

Fixei especialmente alguns episódios com o coronel Periscópio não só pela sua compleição, mas sobretudo pela forma a um tempo profissional e intelectual como encarava a guerra. Dir-se-ia que observava a nossa guerra como se fosse um laboratório, onde ele era o cientista que mais tarde faria aplicar os resultados das experiências na sua guerra, no Vietnam.

E foi da sua boca que saíram algumas verdades gritantes que, se por um lado exaltavam as qualidades do soldado português, por outro punham em causa a estrutura e os meios da própria guerra.

Por exemplo, confessava-se perplexo com a limitação dos meios aéreos e mesmo com a qualidade e a quantidade do armamento que equipava as forças portuguesas. Ainda mais quando era evidente que, do outro lado, e tirando partido da guerra fria entre os dois blocos, o inimigo era fortemente equipado pelos países do leste e praticamente todas as suas forças eram enquadradas por instrutores ou observadores cubanos altamente treinados e que, na verdade, constituíam o núcleo de quase todas as acções ofensivas dos guerrilheiros.

O coronel Periscópio mostrava-se sobretudo admirado com a capacidade de resistência e abnegação do soldado português. Ficou célebre a comparação da "coca-cola":

Dizia ele que no Vietnam seria impensável que o soldado americano aceitasse passar quatro ou cinco dias em combate na mata, carregando ele próprio as rações de combate que se tornavam intragáveis depois de meia dúzia de repetições.

Afirmava convicto:

- Soldado americano recusava-se avançar mais um passo se, ao fim do primeiro dia na mata, o helicóptero não fosse levar coca-cola ao pessoal.

E acrescentava: - E tinha de estar bem fresca!